terça-feira, 28 de agosto de 2007

Amougies





"... Em Dezembro, o «Fluido Cor-de-Rosa» é pelo terceiro ano consecutivo, hóspede de Théatre 1940 de Bruxelas. Antes de voltar a atravessar a Mancha, o grupo dirige-se para o monte de l'Enclus, perto de Amougies, uma aldeia do sul da Bélgica, onde se desenrolará o grande festival pop de Paris, proibido pelo presidente da Câmara da «Gay Paris». O mestre de cerimónias é Frank Zappa. O seu contrato estipulava que tinha de tocar com todos os conjuntos presentes. Por isso, juntou-se aos Pink Floyd em «Interstellar Overdrive».
«Na altura da improvisação tocou sobre um só acorde durante vinte minutos» (D. Gilmour)."
- do livro "Pink Floyd", de Jean-Marie Leduc, Colecção Rock On , Editora Centelha


Estamos no Amougies Pop and Jazz Festival de 1969. Um mega-festival que incluiu nesta edição mítica bandas como os Yes, Colosseum, Soft Machine e grandes senhores do calibre de um Archie Shepp e Captain Beefheart. Mas, acima de tudo, o único lugar da Terra onde um público ansioso de psicadelismo teve a chance de ver (e ouvir), no mesmo palco, Frank Zappa e os Pink Floyd, na altura acabados de gravar o misterioso Ummagumma.


Aqui deixo à disposição, se é que ainda não ouviram, um ficheiro bootleg do dito espectáculo, que inclui três músicas (embora, oficialmente, Zappa só tenha comparticipado na primeira, Interstellar Overdrive, as restantes continuam a ser um óptimo documento de um concerto dos Pink Floyd). Sendo um bootleg, claro que a qualidade é duvidosa, incluindo variações de volume, som de fritadeira, distorção, e outros defeitos sonoros familiares. Ainda assim, como curiosidade tem algum valor para os fãs e não só. Um testemunho do momento em que dois dos maiores artistas da altura e de sempre pisaram juntos o palco.

O ficheiro pode ser descarregado aqui.

A track-listing inclui:
1. - Interstellar Overdrive (12:45)
2. - Green Is The Colour (04:15)
3. - Careful With That Axe, Eugene (09:30)

terça-feira, 21 de agosto de 2007

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Case Study: LSD

domingo, 19 de agosto de 2007

Dave & John



O clube do 22 de Novembro, como os nossos pais o chamavam, formou-se numa noite como esta, de ar húmido e saturado, no alpendre da minha antiga casa mesmo á beira do rio. Eu estava sentado junto á lareira, numa poltrona de pele vermelha, naquele que era o meu cantinho predilecto para colocar a leitura em dia. Ali, aventurava-me nos romances famosos, como A Ilha do Tesouro, A Máquina do Tempo, As Viagens de Gulliver, e outros clássicos cujas loucuras da juventude não me haviam deixado desfrutar no tempo devido.

- Tudo bem. – pensava para comigo. – Uma boa história nunca chega tarde demais.

Mal eu sabia a verdade nas minhas palavras, nessa noite. Qual profecia escrita na pedra, tornaram-se um lema para o resto dos meus dias.

Sentado no meu canto, aconchegado, folheava lentamente, uma a uma, as páginas da minha mais recente pesquisa literária. Tratava-se de uma cópia, muito velha, da obra-prima desse poeta louco, Jack Kerouac, Pela Estrada Fora. Passara por muito, o pobre livro, e já tinha as páginas amarelecidas e um pouco rasgadas quando o encontrei numa antiga arca dos meus pais. Agora, lia-o maravilhado, com dezenas de personagens que desfilavam diante de mim, cada uma mais insana e fascinante que a última. Entrava eu no sétimo capítulo quando ouvi pancadas na porta.

Levantei a cabeça, alerta, e ouvi-as de novo. E mais uma vez, ainda antes de me poder soerguer. Quem quer que fosse, era impaciente. Não teve chance de bater outra vez, pois escancarei a porta velozmente. Lá fora estava um rapaz da minha idade, sujo, e vestido apenas com uns jeans e uma t-shirt branca. Aos seus pés, um saco de viagem esfolado, cheio até ás costuras. Trazia na cara um sorriso gozão e uns olhos cravados da falta de sono.

- Ei, John! Como vão as coisas?

Olhei para o rapaz com ar indiferente, mas cauteloso. Fosse quem fosse, sabia o meu nome. Tornei a analisá-lo, de alto a baixo, e consegui formar um pensamento, uma memória, mas estava atolada em lixo burocrático na confusão em que havia transformado a minha cabeça. Não tinha chance de ver claridade. A menos que…

Sem hesitar, ou sequer mostrar receio pela minha falta de hospitalidade, o estranho retirou um cigarro do bolso das calças, segurou-o com dois dedos e encostou-o à testa.

- Dave? – exclamei.

Ele sorriu em resposta.

- Meu Deus!

- Estava a ver que te tinhas tornado lerdinho, John. Ainda bem que não. Não fazes ideia da quantidade de pessoas que me vê e age como idiotas. Algumas nem são tão estúpidas como querem parecer, se me entendes. – e sorriu novamente.

- Desculpa, mas é que… Eu não te vejo há o quê? 3 anos?

- Por volta disso. Vejo que te livraste dos óculos. Pareces outra pessoa.

- Tu também. Que barba é essa?

- Gostas? Surgiu da noite para o dia. Deve mais á falta de higiene que às tendências da moda, garanto-te. – e riu-se, apenas para mudar de expressão quase imediatamente – Ouve John, não vou mentir-te. Por mais que gostasse de ter vindo visitar-te pela nossa amizade, a verdade é que preciso de abrigo para esta noite, e tu foste das únicas pessoas que não mudou de casa desde que o grupo se separou, por isso… Seria óptimo se eu pudesse dormir por aqui, só por esta noite.

Olhámo-nos em silêncio durante uns instantes. Acho que mesmo sem aquele pedido atabalhoado eu o teria convidado para entrar. Ainda admirava aquele profeta demasiado para lhe negar abrigo.

Entrou e sentou-se na minha velha poltrona, delicadamente. Interessava-lhe o que andava a ler, encorajou-me a não interromper só pela sua chegada. Não lhe dei ouvidos, nessa altura já estava a destrancar o quarto de hóspedes para o alojar, enquanto ele me gritava da sala.

- Não preciso de mordomias, John! A sério. Eu posso dormir em qualquer lado, no sofá, ou no chão! O único sítio onde não quero dormir é lá fora, porque não estive fora o tempo suficiente para esquecer o que esta cidade tem de pior.

Apesar disso, colocou o saco no quarto, ao lado da cama, e ajudou-me a fazê-la. Agradeceu-me e perguntou de tinha algo para comer. Fui até á cozinha e consegui desencantar os restos do meu jantar, frango, que ele devorou avidamente, mas sem esquecer as boas maneiras. Convidou-me a sentar-me á mesa com ele, para conversarmos.

- Ainda te lembras da última vez que estivemos juntos?

- Claro. Foi na festa da Leia.

- Rapaz! É verdade! E que grande loucura! Lembro-me perfeitamente! A nossa banda estava lá para tocar mas no fim da noite estávamos tão bêbados que nem conseguíamos pegar nos instrumentos! Ah Ah Ah! Que imbecis que éramos!

Ria-se como um maníaco, lançando grandes gritos a plenos pulmões.

- E a Leia vomitou em cima dos pais, quando chegaram a casa. – disse-lhe.

- Ah Ah! Isso foi impagável! Deves-te lembrar melhor disso que eu, John! Por essas horas já eu devia estar fora de serviço!

- Surpreendentemente não – sorri. – Creio que estavas fechado na casa de banho com a Mary Ann.

- Meu Deus! Lembras-te de tudo! É verdade, sim senhora! Mas ao contrário do que possas pensar, nunca cheguei ao pódio com ela. O que aconteceu foi que estávamos ambos tão bêbados que adormecemos por cima da sanita. Aposto que as histórias que ouviste soavam diferentes, mas é esta a verdade. A pobre rapariga nunca conseguiu desmistificar isso.

- Nunca mais ouvi notícias dela.

- Eu sim. Fechou-me a porta na cara quando lhe apareci à frente há cerca de dez dias. Foi uma das piores desilusões.

O silêncio instalou-se com isto. Dave já tinha acabado de dissecar o frango e olhava para mim fixamente.

- O que andas a fazer, afinal, Dave? – atirei-lhe.

- Muita coisa ao mesmo tempo, John. A minha cabeça não pára de trabalhar e isso está-me a deixar doido. Tenho de escoar as ideias, John. Reiniciar o sistema, percebes? Começar do zero.

Ninguém falou. Passado um momento, Dave levantou-se e foi atirar os restos de comida para o lixo e colocou o prato no lava-loiça.

- Vou dormir, John. Se soubesses como estou cansado... Desculpa por te pedir as coisas desta forma, mas prometo-te uma passagem breve pela tua vida, está bem? Amanhã, por esta hora, serei um fantasma ou uma ilusão e em poucos meses, nem te vais recordar que estive aqui. Com alguma sorte, nem eu…

O que lhe havia eu de responder?

- Boa noite, Dave.

- Boa noite, John.

E com isto, afastou-se e ouvi-o fechar a porta do quarto de hóspedes. Voltei o olhar para o livro do Jack, pendurado na poltrona, apaguei as luzes e fui dormir.

domingo, 29 de julho de 2007

Vídeo: Bat For Lashes - What's A Girl To Do



Até agora, na minha opinião, um dos vídeos mais interessantes deste ano. Muito inspirado pelo universo do Donnie Darko, o que só lhe dá mais pontos.

A senhora é Natasha Khan, a.k.a., Bat For Lashes, que lançou um álbum no ano passado, curiosamente no meu dia de anos. Fur and Gold, se não me engano, chegou agora às nossas lojas, talvez mereça uma audição.






Ainda com a mão na massa, há um outro vídeo, menos conseguido, do mesmo álbum. Podem vê-lo aqui se tiverem curiosidade.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Wuuuu-huuuuu


A canção do ano.





Ou...posto de outra forma:




"
never mind album of the year, this is one of the albums of the decade. kevin barnes is the outstanding songwriter of our day - and a brian wilson, eno, bowie, lydon, reed, iggy.... in one package. this is where pop music is at now - ignore it at your peril.


and to all who say the earlier stuff is better - i have 6 words -


the past is a grotesque animal"


by azfad, in RYM: of Montreal - Hissing Fauna, Are You The Destroyer?

sábado, 7 de julho de 2007

On Interpol



Sou uma pessoa muito suspeita para dizer seja o que fôr sobre os Interpol. O meu primeiro contacto com eles foi o Antics, só depois ouvi o Turn On The Bright Lights e, durante um breve período de adaptação, continuava a achar este último inferior.

Depois deixei-o assentar. Compreendi o sentimento, os antí-clímaxes das melodias, as histórias de metrópole desacreditada, as personagens (algumas anónimas, outras chamadas Stella ou Roland, sobreviventes numa cidade que não os compreende). Há uma claustrofobia neste álbum, uma melancolia. Raras são as vezes que uma banda se junta e consegue reunir, à primeira tentativa, tanto a inspiração acumulada em Nova York, como a técnica instrumental mais que competente para transmitir a mensagem. Por isso é que os Interpol se tornaram uma banda especial, uma revelação para muitos.

Claro, com esse "hype" chegam muitas outras críticas. As comparações com bandas como os Joy Division são conhecidas há muito, mas não quero realmente debater aqui esses aspectos. Basta-me saber que os Interpol são uma banda diferente dos Joy Division. Nem melhor, nem pior, e decididamente não são uma cópia. A prova desta minha convicção está no facto de gostar de Interpol, mas não gostar de Joy Division.

O que fazer depois de um álbum de estreia mais-que-bem sucedido? Um álbum celebrado pela crítica, um objecto de culto para fãs dedicados? Para os Interpol, a resposta parece ter sido: conquistar mais mercado, espalhar a nossa música a mais pessoas. Com isso em mente, editaram o Antics, o álbum amigável que vendeu consideravelmente, apenas desiludindo um pouco os que esperavam mais. No fundo, acho que essas mesmas pessoas sabiam que seria muito difícil bater a estreia, por isso não houve muita revolta.

Ao terceiro disco, parecem já não ter desculpa. Tiveram tempo suficiente para pesar os seus dois registos anteriores, decidir o que fazer a seguir. O resultado é Our Love To Admire, que fica outra vez aquém das expectativas, e pode mesmo significar o divórcio de muitos fãs da banda, porque parece-se demais com Antics e por outro lado, situa-se entre este e TOTBL, mas parece que nunca se decide para que lado quer ir.

Melhor ainda, não está entre eles, mas é antes um terceiro indivíduo com traços dos seus progenitores. Contudo, é também demasiado desorganizado e imaturo. Não é que tenha más canções, mas o álbum, objecto em si, não flui. As canções são bem formadas, têm todos os elementos que caracterizam os Interpol, até algumas variações, não é uma questão de a fórmula estar estagnada. Ou talvez seja, mas não acredito sinceramente que os Interpol, dada a escolha que fizeram de estilos e sonoridade, consigam evoluir bruscamente sem se tornarem uma banda completamente diferente. Por outro lado, nunca mais conseguiram a mesma poesia e emoção de TOTBL, e cada vez mais parece que cantam sobre algo em que já não se inserem. Tanto em Antics, e agora mais fortemente em Our Love To Admire, mascaram-se da banda que foram quando surgiram, e tentam actuar essas personagens, quando no fundo já as ultrapassaram e não as conseguem recuperar. Na verdade, há uma grande diferença entre rapazes que escrevem canções sobre a cidade onde vivem e estrelas rock que escrevem sobre si mesmos há anos atrás.

Apesar de tudo, estive no SuperBock SuperRock e gostei do concerto que deram. Foi um concerto competente, não foi um espectáculo encenado como os Arcade Fire, ou um "gig" como os Klaxons. Tocaram o que deviam tocar, até mais do primeiro álbum do que eu estava á espera, escolheram as músicas certas do Antics, e não tentaram empanturrar-nos com o novo álbum, apenas algumas (bem) seleccionadas.

Um último comentário. Eu gosto do novo álbum, pelo menos tanto como gosto do Antics, obviamente menos do que TOTBL, mas ainda assim é um registo competente de música e hei-de continuar a ouvi-lo espaçadamente ao longo do tempo. Há, contudo, um momento que acho verdadeiramente bonito no álbum, como se os Interpol não tivessem medo de experimentar algo novo, um vislumbre daquilo para que poderiam (e podem) evoluir. ÉR uma música arriscada, e talvez por isso tenha sido adiada para o fim do álbum, onde, aliás, se encaixa na perfeição. Estou a falar da The Lighthouse.


Interpol - The Lighthouse